Nem sei se devia dirigir as minhas palavras para ti, mas hoje, fui assaltada por memórias cruéis. Foste o autor de cada uma delas. E eu fui fraca por tê-lo permitido. Não sabia que o amor era beijos na testa ou palavras delicadas. Contigo o amor era bem diferente. Era a tua mão marcada na minha cara ou palavras implacáveis.
Lembro-me que chorava todos os dias. Pela dor física que me causavas, mas sobretudo por te amar e ao mesmo tempo querer que desaparecesses da minha vida. E eu só pensava: Que tipo de mulher sou eu? Não conseguia responder a essa pergunta, porque contigo, deixei de me sentir mulher, para me passar a sentir um objecto inanimado nas tuas mãos.
Sofri, até perceber que eu merecia mais e tu não merecias nada.
Sofri, até perceber que eu merecia mais e tu não merecias nada.
Hoje, faz exactamente dois anos que te abandonei. Fiz as malas e sai pela porta da frente, de cabeça erguida, decidida a não ser mais um instrumento para teu deleite e entretenimento. Não conhecia a liberdade e, nesse mesmo instante, dei de caras com ela.
ESTE TEXTO FAZ PARTE DO PROJECTO CAFÉ COM BLOG
Sempre me considerei uma rapariga com pouca sorte no amor. Aliás, pouca sorte é um grande eufemismo para descrever as minhas pseudo relações amorosas. Sempre fui a metade da laranja que ninguém quis. Sempre fui a amiga e confidente. Nunca entendi porquê. Até agora.
Sabiam que o amor pode ser uma coisa terrível quando não se ama a pessoa certa? Aprendi-o das piores formas. E por ter sofrido tanto, sempre fui uma pessoa insegura. Não só em relação aos outros, mas em relação a mim própria e ao que penso quando me olho ao espelho. E essa é das piores sensações que se pode sentir. Pena de nós próprios. Era isso que sentia quando pensava em mim e na vida que levava. Até agora.
Agora, tenho-te a ti. Para desafiares todos os meus medos e inseguranças. Tenho-te a ti para me dizeres que não preciso de ser perfeita para ter a beleza da lua, aos teus olhos. Não preciso de ser perfeita para que não tenhas receio de dizer ao mundo que estás ao meu lado e que eu sou tua, para o que der e vier.
Agora, tenho-te a ti. Para que o amor seja algo verdadeiro e doce. E agora entendo o porquê. És a razão pela qual nunca deu certo antes.
Meu amor,
Vou ser sincera... Não dava nem metade da atenção que deveria aos pequenos pormenores que me rodeavam. Não o fazia propositadamente, apesar das minhas distracções constantes e a minha mente sempre muito aluada. O ritmo frenético de um dia que começou cedo. O ritmo acelerado de um dia que nunca mais chegava ao fim. Até que disse - Chega! E foi a melhor decisão da minha vida.
Ainda me lembro desse dia. Saí tarde do escritório, já sem vontade de chegar a casa e ter de cozinhar para uma só pessoa e comer sozinha recostada no sofá. O dia estava a ser péssimo; não havia como negar. Ainda me lembro que nesse dia não apanhei o comboio de todos os dias e decidi simplesmente andar pelas ruas da cidade.
Sem rumo. Era um resumo bem definido do que era naquela altura. Até podia ter muito do que qualquer pessoa normal desejaria - um bom emprego, uma casa acolhedora, independência - mas sabia que me faltavas tu, mesmo antes de o saber. E sem saber bem como, dei por mim sentada num banco alto de um dos bares da cidade.
Mantinha os braços apoiados no balcão e um copo de moscatel mesmo à minha frente. Encostei o copo nos lábios e senti o sabor doce e quente passar-me na boca. Foi nesse mesmo instante que te ouvi. Não a tua voz. As tuas mãos. O ritmo suave de uma melodia que sempre esperei ouvir. O ritmo intenso que me deixou ébria.
Tentei perceber de onde vinha o som. Rodava lentamente o corpo sobre o banco redondo quando os meus olhos se encontraram com a tua silhueta. A luz ia ao teu encontro, estavas no único sítio bem iluminado do bar. Conseguia ver todos os teus contornos. Conseguia sentir o movimento ritmado dos teus dedos enquanto passavam pelas teclas do piano. Tu e ele pareciam um só, envolvidos numa só harmonia. Distraí-me a pensar no quanto gostaria de ser aquele instrumento e ri-me quando pensei nisso. Quando voltei à realidade, cruzei-me com o teu olhar e sorrias de volta. Derreti tão depressa como o cubo de gelo que já desaparecera no copo que esqueci em cima do balcão.
Olhei-te toda a noite. Contemplei cada pormenor teu. Como nunca antes o fizera. Contemplei-te até ao fim dos teus dias, meu amor. Foi contigo que entendi que o mundo é dos que contemplam o amor. Tu és o meu. E eu hei-de sempre querer olhar-te uma vez mais, mesmo que agora tenha de fechar os olhos e imaginar-te aqui.
Sempre tua
É o dia mais feliz da minha vida - não pensava noutra coisa. Foi essa a frase que se repetiu vezes sem conta na minha mente. Estava parada em frente ao grande espelho do quarto. O barulho parecia aumentar, assim como os batimentos do meu coração.
No jardim, já várias pessoas se concentravam. Os risos estridentes das crianças atravessavam a janela fechada por onde espreitava quando desviei um pouco o olhar. Conseguia ver as cadeiras alinhadas, fazendo um simples corredor que me levaria até ao altar revestido de pequenas gardénias brancas e cor-de-rosa. Onde tu estarias à minha espera...
Voltei a direccionar o olhar para me ver uma vez mais. Vestia-me de branco e pensava nas pessoas que queria ter ao meu lado nesse dia. Pensei no quanto as amava e uma lágrima caiu sobre o meu rosto. Contudo, aquele ainda era o dia mais feliz da minha vida.
Muita coisa estava prestes a mudar. E que mudança boa! A promessa de uma vida a teu lado, meu amor. E eu sei que sempre disseste que não me irias prometer nada que não pudesses cumprir, mas sabes? Este foi o dia a partir do qual cumpriste tudo, mesmo sem o prometeres.








